Seguindo a principal veia das primeiras vanguardas, o construtivismo russo também iria negar a “arte pura”. Os russos iriam deixar de lado o naturalismo e propor uma nova noção de realidade, uma idéia de realismo na sua essência. A idéia de arte como imitação da vida era considerada pelos artistas como inútil. O escritor Ossip Brik questiona: “O que um sapateiro fabrica? Sapatos. E um artista? Nada”. Assim, a proposta construtivista era a de que a arte fosse “parte integrante da vida” (Rodtchenko). Há assim uma reconfiguração da função artística e uma relativa autonomia da arte.
Dentro do construtivismo há alguns critérios estéticos como a fragmentação, os traços geométricos, o abstrato e a montagem. Porém o autor François Albera nos alerta a não limitarmos o movimento construtivista a essas características estéticas porque o movimento foi muito pautado também por motivos políticos e sociais. Ele vai dizer que: “O procedimento construtivista opera sobre a dimensão social das práticas artísticas. Nenhum artista russo do período parece ter ficado de fora dos acontecimentos sociais e políticos.”
E é dentro desse contexto que o pai da montagem, Sergei Eisenstein produziria seus filmes. Neste post, me deterei a comentar um de seus mais importantes filmes: O Encouraçado Potemkin. Um dos maiores clássicos do cinema, o filme encomendado pelo governo revolucionário russo foi muito além das expectativas. A obra narra a revolta dos marinheiros de Potemkin que precedeu a revolução de 17. Esgotados pelos mal tratos e precárias condições de vida os marinheiros se revoltam e tomam o navio. Em resposta o governo assassina centenas de pessoas que assistiam do porto. Essa é uma das cenas mais dramáticas e bem feitas do filme. O diretor alterna closes de rosto, dos soldados, das armas, câmeras de cima, planos detalhes e monta essas cenas de forma a construir uma narrativa enternecedora. O trabalho de montagem do diretor também é facilmente percebido nas cenas de luta e na cena final do provável confronto com o outro navio, em que a montagem alternada de planos causa um suspense enorme até o desfecho. E é por meio da estética construtivista da fragmentação, que Eisenstein dá o seu recado político e propõe uma arte que vai muito além da mimese.
Referência: Albera, François: Eiseintein e o construtivismo russo, São Paulo, 2002.
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
Uma realidade montada: Sergei Eisenstein [Raissa Fernandes] #4
Seguindo a principal veia das primeiras vanguardas, o construtivismo russo também iria negar a “arte pura”. Os russos iriam deixar de lado o naturalismo e propor uma nova noção de realidade, uma idéia de realismo na sua essência. A idéia de arte como imitação da vida era considerada pelos artistas como inútil. O escritor Ossip Brik questiona: “O que um sapateiro fabrica? Sapatos. E um artista? Nada”. Assim, a proposta construtivista era a de que a arte fosse “parte integrante da vida” (Rodtchenko). Há assim uma reconfiguração da função artística e uma relativa autonomia da arte.
Dentro do construtivismo há alguns critérios estéticos como a fragmentação, os traços geométricos, o abstrato e a montagem. Porém o autor François Albera nos alerta a não limitarmos o movimento construtivista a essas características estéticas porque o movimento foi muito pautado também por motivos políticos e sociais. Ele vai dizer que: “O procedimento construtivista opera sobre a dimensão social das práticas artísticas. Nenhum artista russo do período parece ter ficado de fora dos acontecimentos sociais e políticos.”
E é dentro desse contexto que o pai da montagem, Sergei Eisenstein produziria seus filmes. Neste post, me deterei a comentar um de seus mais importantes filmes: O Encouraçado Potemkin. Um dos maiores clássicos do cinema, o filme encomendado pelo governo revolucionário russo foi muito além das expectativas. A obra narra a revolta dos marinheiros de Potemkin que precedeu a revolução de 17. Esgotados pelos mal tratos e precárias condições de vida os marinheiros se revoltam e tomam o navio. Em resposta o governo assassina centenas de pessoas que assistiam do porto. Essa é uma das cenas mais dramáticas e bem feitas do filme. O diretor alterna closes de rosto, dos soldados, das armas, câmeras de cima, planos detalhes e monta essas cenas de forma a construir uma narrativa enternecedora. O trabalho de montagem do diretor também é facilmente percebido nas cenas de luta e na cena final do provável confronto com o outro navio, em que a montagem alternada de planos causa um suspense enorme até o desfecho. E é por meio da estética construtivista da fragmentação, que Eisenstein dá o seu recado político e propõe uma arte que vai muito além da mimese.
Referência: Albera, François: Eiseintein e o construtivismo russo, São Paulo, 2002.
domingo, 29 de abril de 2012
As primeiras vanguardas: o ápice do experimental [Raissa Fernandes] #1
As vanguardas do final do século XIX e início do século XX são tipicamente estudas a partir das obras literárias e das artes visuais. Mas como movimento historicamente fundado, o período vanguardista também formou e foi formado pelo cinema daquele momento. Com o estouro da segunda revolução industrial que traz o telefone, a lâmpada, o automóvel e o próprio cinema, o clima era de grande euforia e de crença no progresso. Ao mesmo tempo havia uma pulsão por revolução, com a crise capitalista e os crescentes ideais socialistas.
E é nesse contexto que o cinema vanguardista vai se formar. Esse foi um período extremante rico onde o cinema era livremente experimental e podia permutar por inúmeras possibilidades. Como na arte e na literatura, vão existir diversos movimentos, muitas vezes bem distantes uns dos outros, mas há um traço que podemos observar em todos os cinemas de vanguarda desse momento. Todos eles se opõem a tradição artística clássica de mimese, de imitação e propõe “a atividade artística como criação de um objeto autônomo e dotado de leis próprias..”(Xavier, Ismael).
O período é conhecido como anti-realista, mas isso é claramente uma questão relativa ao conceito de real. Os cineastas do período buscavam uma realidade mais completa e mais profunda, “muito vasta e profícua para ser abstraída e composta em doses” (Stam, Robert). Buñel comenta que ao escolher a lógica narrativa e o decoro burguês, o cinema convencional havia desperdiçado o seu potencial para a criação de uma arte insurrecional, convulsiva e anti-canônica que visualizaria a “escrita automática do mundo”.
Dessa forma, o cinema dos anos 20 e 30 vão se afastar da noção artística clássica e vão buscar uma integração com o real ao invés de uma idealização dele. Nesse cinema: “não há situações preconcebidas, estas nascem em contato com o espaço e tempo reais, determinados, concretos, individuais.” (Sganzerla, Rogério).
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